Brenda Ligia-Cinema,TV,Teatro

Minha foto
Brenda Ligia: prêmio de Melhor Atriz no festival Cine PE 2017 (Mostra Curtas PE). Estreias em 2017: “Onde Quer Que Você Esteja” (longa da Macondo Filmes/SP); “Causa Mortis” (curta da LRJ Filmes/PE), “Sob Pressão” (série da Rede Globo/ direção: Andrucha Waddington) e “África da Sorte” (série da TV Brasil/direção: Renata Pinheiro). Brenda está nos longas "Todas as Cores da Noite" (Pedro Severien), "As Melhores Coisas do Mundo" (Laís Bodanzky), "Sangue Azul" (Lírio Ferreira), "Bruna Surfistinha" (Marcus Baldini). Atuou nas séries de televisão "A Mulher do Prefeito" (Rede Globo), "Beleza S/A" (GNT), "9mm SP" (Fox), "Somos Um Só" (TV Cultura). Também é apresentadora e videomaker. Protagonizou comerciais e videoclipes musicais. Estudou no Teatro Escola Macunaíma/SP; atuou em comédias, musicais, infantis e dramas. Foi dirigida por Wagner Moura na leitura dramática do espetáculo “Tchau, Querida!”. É formada em Comunicação Social pela Faculdade Oswaldo Cruz/SP, cursou Ciências Sociais na University of the West Indies (Trinidad & Tobago, Caribe) e Francês em Vevey (Suíça). CONTATO: brenda.ligia@hotmail.com

15 de março de 2013

Viagem



Eu, Brenda Ligia, no MAO, BH, MG (Museu de Artes e Ofícios)
Ontem, em estado de graça, vivenciei um belíssimo entardecer na Praça da Estação, no centro de Belo Horizonte, no coração do Brasil. Após uma visita ao Museu de Artes e Ofícios (MAO), dei uma pausa no Café dos Ofícios para um cafezinho: pairava o cheiro de pão-de-queijo, o sotaque simpático, o jeitinho mineiro. Sentia uma energia boa naquele local de rara beleza arquitetônica, com prédios tombados pelo patrimônio histórico, por onde passam, diariamente, milhares de trabalhadores da capital. Fiquei ali sentada, vivendo... assistindo gente real, ao vivo.

Ainda extasiada com a visita ao museu, relembro cada momento registrado naquele cenário. Esse rico aprendizado consiste em viajar por três séculos na história dos fazeres, dos ofícios e das artes no Brasil... é uma viagem no tempo e na história do país. Um dos salões é de uma beleza de tirar o fôlego; ao subirmos as escadas, somos transportados a outra época! Os olhos se enchem diante de tanto requinte, embora seja pesada a carga da nossa História.
MAO- Museu de Artes e Ofícios (BH)
No auge do calor de fim de tarde, ligam o chafariz da praça e é bonito o espetáculo das águas voadoras; como os jatos d’água que vi, uma vez, num lago em Genebra. Então um homem se aproxima da fonte, excitado. Ele joga as mãos pro alto, como um agradecimento. Fica ali, estático, recebendo água fresca no rosto... e abre um sorriso. Dá uma pirueta ousada com sua cadeira-de-rodas e some por entre os jatos d’água, numa nuvem branca respingada de luz, fazendo manobras que o levam a viver o melhor da vida com a vida que se tem. 

Homem na Praça da Estação
Peço mais um café antes de partir, satisfeita e bem feliz. 

A seguir, relatos apreendidos no museu. 

 TROPEIRO
Tropeiro
     O tropeiro (que tinha grande poder econômico na sociedade do século XVIII) era obrigado a enfrentar caminhos difíceis e perigosos, frequentemente dormindo ao relento. Com isso, suas refeições eram específicas, com pouca variação: carne-seca, feijão, angu de milho, farinha de mandioca e torresmo (alimentos que não se deterioravam no decorrer da viagem). Um dos  destaques da cozinha mineira, o feijão-tropeiro, é inspirado na dieta do velho tropeiro: mistura de feijão refogado em gordura com farinha de mandioca e de milho, guarnecida com pedaços de torresmo. 

      VIAJANTES
Viajante
O viajante era visto como uma pessoa excepcional, fascinante, que trazia mercadorias e novidades do mundo. Passava por inúmeros percalços geográficos e naturais, sendo obrigado a enfrentar quadrilheiros, piratas e inimigos ao longo das trilhas e estradas. Em Minas Gerais, até o século XVIII, o governo desencorajava os viajantes a desbravar a região, como forma de manter o controle social e econômico (para que o ouro não fosse desencaminhado). Exigiam-se passaportes para ir de uma cidade à outra, e havia diversos pontos de controle. Hoje em dia, temos mapas, policiamento, estradas, avião... 

·         MULATOS
Carregador
Até meados do século XVIII, o transporte de carga no Brasil era feito pela força humana, através de escravos africanos ou índios que carregavam caixas, mercadorias e até viajantes nas costas, nos ombros e na cabeça. Pode vir daí a origem da palavra “mulato”, derivada de mula (híbrido de jumento com égua, que revolucionou o transporte de carga na América do Sul). Eram “animais rústicos, resistentes, que suportavam viagens de longa duração, possuíam audição sensível, fácil processo de doma, eram hábeis e pouco exigentes em relação à alimentação”.


·         ANIMAIS
Carroção / junta de bois
Com as mudanças da terra, o homem foi abandonando a vida de caçador. Começou a cultivar cereais e domesticar animais. Hoje em dia, temos animais de estimação: provavelmente uma herança do hábito que os caçadores tinham de trazer filhotes de animais selvagens para seus filhos. Os primeiros animais domésticos (inclusive os de tração) chegaram ao Brasil no início da colonização. Nas zonas litorâneas dos engenhos reais em Recife, Salvador e São Vicente, formaram-se três grandes núcleos importadores de gado de origem portuguesa.

·         FONTES DE ENERGIA
Roda d'água
A utilização da força motriz humana, hidráulica, a vapor ou elétrica permite identificar sociedades como rurais, urbanas, feudais, escravistas ou capitalistas.  Esses processos sociais envolviam várias etapas, repetições, experimentações e invenções, todas com o mesmo fim: aumentar as fontes de energia conforme a necessidade de moer, triturar, socar, elevar água, arar, serrar, soprar, aquecer, esfriar... Habilidade, perícia, artifício e conhecimento estavam na base das condições necessárias à montagem e funcionamento dos mecanismos de produção de energia. Artes e ofícios especializados, como carpintaria, marcenaria, engenharia e ferraria, eram requisitados para viabilizar as construções e solucionar problemas técnicos. 


·         MINAS
Mineração
Entre 1710 e 1760, Minas Gerais foi o maior mercado do tráfico negreiro internacional, pois era grande a demanda por mão-de-obra para trabalhar nas minas de ouro. O trabalho era cansativo, as técnicas eram rudimentares e as ferramentas insuficientes (pá, picareta e bateia). Além disso, o escravo minerador vivia vulnerável à exposição excessiva ao sol e às baixas temperaturas das águas.

      GANHO
Ferramentas do garimpo
     O “sistema de ganho” exigia dos escravos a entrega de uma quantia semanal ao senhor, permitindo que se sustentassem com o resto de seus ganhos. Sua adoção foi imediata na mineração, pois estimulava a produtividade do trabalhador escravo, que, mesmo nos dias livres (domingos e dias santos), optava por continuar o trabalho de faiscação nas minas de ouro. Por isso as alforrias foram muito mais frequentes em MG do que em outros estados. 

     

      EVOLUÇÃO
Contemplação do passado
Aos poucos, o ouro fácil (nas encostas) foi se esgotando. A partir de 1770, a busca subterrânea passou a prevalecer. O transporte (de minério e de água, em vasilhames) do subsolo à superfície era realizado por escravos: uma tarefa penosa. Após a independência do Brasil, com aporte de investimento inglês, a Saint John del Rey Mining Company e sua Mina de Morro Velho transformaram o setor para sempre, e assim a mineração foi o primeiro setor produtivo brasileiro a entrar na era industrial.


·         FERRO
Lapidação e ourivesaria
Em Minas, a demanda histórica por artefatos de metal, sobretudo os de ferro, foi quase sempre insaciável. A partir do século XVIII, ferreiros proliferaram, pois havia demanda por parte de diversos ofícios: para transformar o couro, argila, madeira, pedras, panos e demais metais, era necessária a produção de bigornas, forjas e fundições. Também eram necessárias peças de ferro à agropecuária (movida por força hidráulica) e à movimentação das tropas de burros e carros de boi.

 ·        OURO
Ourives
Os trabalhos dos ourives se uniam ao de desenhistas, escultores, torneiros, fundidores e lapidários. Usavam martelos e bigornas para moldar placas de ouro e prata. A partir da última década do século XVII, Minas Gerais era conhecida como a terra do ouro e das pedras preciosas, e isto gerou uma rede de centros urbanos de médio ou pequeno porte. A mineração aurífera foi, portanto, uma das grandes responsáveis pelo florescimento dos ofícios no Brasil.


·         MANDIOCA
"Em tempos idos, apareceu grávida a filha dum chefe selvagem, que residia nas imediações do lugar em que está hoje a cidade Santarém. O chefe quis punir no autor da desonra de sua filha a ofensa que sofrera seu orgulho e, para saber quem ele era, empregou debalde rogos, ameaças e por fim castigos severos. Tanto diante dos rogos como diante dos castigos a moça permaneceu inflexível, dizendo que nunca tinha tido relação com homem algum. O chefe tinha deliberado matá-la, quando lhe apareceu em sonho um homem branco que lhe disse que não matasse a moça, porque ela efetivamente era inocente, e não tinha tido relação com homem. Passados os nove meses, ela deu à luz uma menina lindíssima e branca, causando este último fato a surpresa não só da tribo como das nações vizinhas, que vieram visitar a criança, para ver aquela nova e desconhecida raça. A criança, que teve o nome de Mani e que andava e falava precocemente, morreu ao cabo de um ano, sem ter adoecido e sem dar mostras de dor. Foi ela enterrada dentro da própria casa, descobrindo-se e regando-se diariamente a sepultura, segundo o costume do povo. Ao cabo de algum tempo, brotou da cova uma planta que, por ser inteiramente desconhecida, deixaram de arrancar. Cresceu, floresceu e deu frutos. Os pássaros que comeram os frutos se embriagaram, e este fenômeno, desconhecido dos índios, aumentou-lhes a superstição pela planta. A terra afinal fendeu-se, cavaram-na e julgaram reconhecer no fruto que encontraram o corpo de Mani. Comeram-no e assim aprenderam a usar a mandioca*." (Couto de Magalhães, 1876)
*mandioca: Mani-oca, do tupi, significa “casa de Mani” (a deusa benfazeja dos guaranis)
* lenda registrada do folclore (domínio público)

·         TEAR
Registro francês sobre o trabalho das mulheres índias no Brasil: “As mulheres fazem ali todos os trabalhos dos homens. Tem noções de confecção. Tecem redes de dormir em tão grande quantidade que as mesmas são exportadas até para a província do rio Negro e Belém. Tem plantações de algodão, fiam-no e tingem os fios com o suco extraído de certas plantas. Fabricam camisas com cascas de turiri submetidas a vigorosas marteladas. Fazem redes de palha, tecido e cordas”. (D’Orbigny, 1836)


*O supracitado foi naturalista, explorador, paleontologista e malacologista (malacologia é o ramo da biologia que estuda os moluscos).
*Para tingir colchas, toalhas ou lençóis, as mulheres utilizavam, para o azul, uma mistura de anil e urina como fixador. O vermelho (que não sabiam fixar) era obtido de raízes da espécie “erva-de-rato” ou “ruivinha” (árvore araribá).


·         ROUPARIA
Costureira
“Não é uma agulha autônoma que costura, que guia a quilha regulando o corte, o pesponto pronto, a curva seguindo o molde, o ponto sob controle. Não é uma agulha anônima que fia roupa, cria colcha, constrói  raro o vestuário ao toque do overloque, farda forte, o pobre uniforme do empregado, de tecido frágil e mole. É rápida a agulha e não vacila nunca porque há lá (acima da hierarquia da franquia) uma máquina que não a ignora, que range decibéis em excesso; a agulha é de aço e não erra porque há lá (abaixo na hierarquia da vida) a mão hábil e calada que costura, o dia-a-dia, puxa pano, o pé no pedal controlando os ritmos, os trilhos e rupturas na dura rotina da rouparia. Vence, não cede; treme e não perde a cabeça; avança, apesar do cansaço, tece; lamenta o escasso salário necessário, o horário de trabalho, a força das costureiras, abelhas-trabalhadeiras. É a força de um exército sem sargentos, êmbolos sem seringas: são senhoras estes tristes aríetes em riste”.
Alexandre Guarnieri

*aríete: antiga máquina de guerra usada na Idade Média para romper muralhas e portões de castelos e fortalezas. Foram precursores dos tanques de guerra.

E mais... obrigada, Antonio Edson Cadengue, meu diretor de teatro, por me fazer querer saber cada vez mais sobre nosso passado histórico. O Teatro salva! 
*"As Confrarias", de Jorge Andrade, estreia em junho de 2013. Cia Seraphim de Teatro/ PE
Botica
Segundo pavimento, suntuoso
Cozinha, sapataria/ Alambique, açougue

Nenhum comentário: